Em 2006, durante a realização do Fórum Econômico Mundial[1] foram realizados vários seminários sobre criatividade como uma maneira de chamar atenção aos líderes mundiais de que não é possível solucionar os seculares problemas do mundo se esses problemas não forem analisados com a ótica de solução criativa de problemas, ou seja, se não forem olhados com outro viés de como têm sido analisados nos últimos anos.
O 36o. Encontro Anual do Fórum Econômico Mundial realizado , em 2006, foi aberto com uma chamada para líderes economistas, políticos e sobre a importância da criatividade para se encontrar novas respostas para os problemas mundiais.
“As hipóteses, ferramentas e conjecturas que os líderes vêm usando para tomar decisões na última década passada parece ser inadequada. Portanto, é imperativo para líderes em todos os cenários da vida desenvolverem novas capacidades se esperam ser bem sucedidos e se manterem relevantes”, disse o Prof. Klaus Schwab, Fundador e Principal Executivo do Fórum Econômico Mundial.
“ É necessária para encontrar novas ferramentas e soluções que ajudarão a dissolver as nuvens cinzentas do desequilibrio global, concorda Mukesk Ambani, Executivo e Diretor, Reliance Industries, India e Co-Executivo do Encontro Anual de 2006. O mundo tem chances reais se conseguirmos formar uma parceria global para banir a pobreza e nós precisamos de soluções criativas. O que nos estamos fazendo quando vamos para o Encontro Anual é provocar um diálogo entre diferentes constituintes para formar uma parceria para criar um mundo mais equilibrado”, diz ele.”
Dando continuidade a esse processo e preocupada em como seria possivel melhorar das pessoas e, consequentemente, conseguir inovar processos, produtos e serviços a Comunidade Econômica Européia definiu 2009 como o Ano Europeu da Criatividade e da Inovação.
A partir desse episódio, as palavras inovação e criatividade tornarem-se a ordem do dia dos governos, empresas e instituições no Brasil e no Mundo; nunca se falou tanto em inovação nos últimos anos como tem se falado ultimamente.
Todavia, um recente relatório publicado pelo INSEAD[2], Londres, que pesquisou através de 12 indicadores bastante consistentes o estado da arte da inovação em 132 países do mundo, coloca o Brasil em 68º lugar no ranking de países inovadores do Mundo.
O que observamos é que falamos muito em inovação, mas o que percebemos é que há uma grande confusão sobre o que seja criatividade e o que seja inovação. valendo considerar, portanto, que criatividade e inovação não são as mesmas coisas.
O processo de criar é uma habilidade fantástica da mente humana, que traduz as percepções e os entendimentos escondidos no fundo do nosso inconsciente e os leva para a arte, para a ciência, medicina, engenharia, em suma, para as escolas, para as universidades, comunidades, empresas, pessoas e para o dia a dia de todos nós.
Em resumo poderemos dizer que a criatividade é a habilidade de fazer a comunicação externa (entre as conexões e insights que estão escondidos na nossa mente) das ligações que estabelecemos entre duas ou mais coisas e das idéias que surgem em nossa mente trazendo-as para a realidade, para o mundo externo. Vale, portanto, afirmar que a criatividade não é importante apenas para as artes como muitos pensam, mas para todos os tipos de atividades e também para os negócios.
Todavia, quando falamos em organizações, comunidades ou grupos podemos perceber que para se desenvolver a criatividade nesses ambientes é necessário se levar em consideração não apenas as ferramentas, mas principalmente como desenvolver o pensamento criativo para que se consiga um ambiente – realmente - criativo. A partir do fortalecimento desse ambiente iremos ter a geração de centenas de ideias e, certamente, muitas delas irão poder ser tranformar em processos, produtos ou serviços inovadores.
Por outro lado, quando falamos em inovação queremos dizer que o se busca é a transformação dessas ideias ou “insights” em resultados com valor agregado seja em processos, seja em serviços, seja em produtos. Inovar, portanto, é tornar o que foi criado em algo novo e útil, mas que possa ser utilizado no mundo real; daí o motivo de alertarmos que poderemos ter criatividade sem ter inovação; mas é impossível se ter inovação sem criatividade.
Uma das definições do que seja inovação e que consideramos bastante esclarecedora é a elaborada pela European Foundation for Quality Management[3], que afirma:
“Inovação é na prática a transformação de ideias em produtos, serviços, processos, sistemas e interações sociais. Através da inovação é possível se criar novas cadeias de valor que satisfazem acionistas e promovem o desenvolvimento sustentável. A inovação gera trabalho, aumenta a qualidade de vida e promove a sociedade sustentável. Inovação não pode ser confundida com “high-tech”. Ela floresce em todas as dimensões da economia e da sociedade.”
A inovação é o final do processo criativo. Enquanto a criatividade pode ser um processo de um único indivíduo que teve uma grande ideia; a inovação é o resultado do trabalho em equipe que transformará essa grande ideia um processo, produto, serviço ou interação social de alto valor agregado.
Vamos considerar alguns exemplos básicos partindo de uma grande ideia até se passar por várias etapas da inovação incremental:
1 - Em 1876, Graham Bell conseguiu fazer com que a voz humana fosse transformada em sinais e transmitida por um fio. Qual a grande ideia? O telefone. Mas, o que aconteceu com o telefone nesses 134 anos? Foi passando por gradativas transformações incrementais, cada uma agregando valor até transformar-se no poderoso celular, o qual por sua vez a cada minuto passa por outras violentas transformações. Dai poderemos perguntar: “Quem inventou o telefone?” Rapidamente responderemos: “Foi Grahan Bell.” Mas, quem inventou o celular? Impossível responder justamente porque o celular já é uma inovação e o resultado de um trabalho envolvendo milhares de pessoas, centros de pesquisas e cientistas.
2 - Nos primórdios da Humanidade o homem teve a brilhante ideia de através do atrito entre dois pedaços de madeira gerar o fogo. Fazia a fogueira que servia para aquecer, para preparar alimentos, para proteger do ataque de animais e também para fazer das chamadas “rodas do conselho” na quais discutiam os problemas daquela comunidade. Todavia, só em 1879, Thomas Edison através de uma inovação radical fez com que as luzes das velas dos candelabros e candeeiros de querosena fossem substituidas pela lâmpada elétrica. Com isto, a luz elétrica deixou de lado os românticos candelabros e, gradativamente, foi sendo modificada através de transformações incrementais até chegar à luz de neon, luz fria e muitas outras formas de iluminação modernas. A grande ideia inicial foi de Edison, mas quantos e quantos cientistas e centros de pesquisas estudaram a lâmpada e foram pouco a pouco fazendo transformações incrementais até chegar à lâmpada de neon? Portanto a criatividade teve o grande gênio de Edison ao criar a lâmpada elétrica em 1879; todavia a lâmpada de neon que poderemos afirmar tratar-se de uma inovação quem realmente foi o seu criador? Mais uma vez a resposta, muita gente envolvida.
3 - Em 1906 Santos Dumont teve a ideia de provar que o mais pesado do que o ar poderia voar independentemente de um balão para sustentá-lo. Aqui teremos várias variantes a considerar: os teco-tecos, os aviões supersônicos, os aviões a jato e os ônibus interespaciais. Cada um para acontecer foi resultado de muito investimento, muita pesquisa, muita gente envolvida e muita incrementação, até se chegar ao produto final.
A pergunta final é sem a grande ideia inicial: “Sem o telefone, sem a lâmpada elétrica e sem o 14 BIS, teríamos chegando de imediato ao telefone celular? Na lâmpada de neon? No ônibus espacial?”
Lamentavelmente no Brasil se fala muito de inovação que é o final do processo, mas esquecemos de falar na criatividade que é o início do processo. As empresas querem inovar os seus processos, produtos e serviços; as instituições buscam a inovação social, mas esquecem – em sua maioria – de que para se inovar a contento é necessário se criar um ambiente favorável ao pensamento criativo, ou seja, a geração de idéias que irão virar experimentos, que poderão se transformar em inventos, novos processos, serviços e que poderão, em seguida, passar por uma infinidade de processos de inovação. Não foi por acaso que a Petrobras incluiu em 2000 a criatividade e a inovação como uma das dez competências-chave dos seus empregados.
Por outro lado, acreditamos que deveria ser uma preocupação das escolas, faculdades e universidades desenvolver desde a idade jovem o potencial criativo dos seus alunos.
Há ainda uma pequena confusão. Para muitas pessoas a palavra criatividade ainda é vista com certa reserva; os motivos são muitos e de certa forma fazem sentido: pois muitos acreditam que a criatividade está ligada apenas às artes: pintura, desenho, escultura, canto e teatro. Por conta desse pouco entendimento, a maioria da população e até mesmo pessoas muito esclarecidas não compreendem que é, na verdade, resultante da nossa capacidade de enxergar o mundo com outros olhos, ver os mesmos problemas de forma diferenciada e, dessa maneira, conseguir encontrar soluções ainda não pensadas ou sugeridas. A criatividade não está apenas em desenhar belos quadros, em fazer belos bonecos, nem esculturas magníficas, na verdade, esta é apenas uma das muitas facetas da criatividade.
Em resumo, pode-se afirmar que é um processo, cujo produto final resultante é algo que é novo, considerado útil ou satisfatório para um determinado grupo de pessoas num determinado período. Logo, não basta apenas ser uma “novidade” para que um processo ou um trabalho seja considerado criativo. O processo criativo ocorre num contexto social, sendo, portanto afetado pelo ambiente geográfico, pelas forças sociais, econômicas e políticas, pelos valores culturais e é fundamentalmente afetado pelas oportunidades geradas pelo sistema de educação e as práticas existentes na educação das crianças.
Finalizando, a inovação é resultante da criatividade e sem que se estimule a criatividade no ambiente de trabalho, sem desenvolvermos o nosso pensamento criativo é muito dificil haver inovação.
Portanto, por mais que se deseje e busque as empresas e instituições não começarão a colher realmente a inovação enquanto não plantaram no seu solo empresarial.
(*) Fernando Viana
Diretor Presidente da FBC